ROSA CHURCHER CLARKE

ROSA CHURCHER CLARKE

Título: Ilse (Lieblich) Losa – ‘nomadic subject’ por excelência para a literatura portuguesa

Resumo: “Quando me é posta a pergunta: ‘sente-se mais portuguesa ou mais alemã?’ respondo: Nem uma coisa nem outra. Como podia sentir-me portuguesa se todos os portugueses vêem em mim a alemã ou a judia alemã? E como me podia sentir alemã se os alemães vêem em mim a portuguesa?” (Losa, À Flor do Tempo, 1997). Ilse Lieblich Losa, refugiada judia-alemã que se radicou no Porto a partir de 1934, habitou múltiplas margens sociais e literárias ao longo da sua vida e carreira: a de mulher, a de escritora de literatura infantil, e – a mais acentuada no caso dela – a de ‘estrangeira’. Das posições minoritárias e espaços periféricos que consistentemente ocupou, fez um domínio seu, chegando a ganhar uma importância especial (nem sempre reconhecida) para a literatura portuguesa. Rosi Braidotti, na sua teoria do ‘nomadic subject’, descreve como “a escrita nómada anseia […] pelo deserto: áreas de silêncio entre as cacofonias oficiais, namorando a não-pertença e o ser-estrangeiro radicais” (Nomadic Subjects, 1994, tradução própria). Criticando a natureza rígida e de exclusão da delimitação de identidades tal como é tradicionalmente praticada no campo filosófico, Braidotti desenvolve uma abordagem à subjetividade baseada na flexibilidade, fluidez e mutabilidade. Se Braidotti encabeça uma revolução nomadica-feminista na filosofia contemporânea ocidental, aqui proponho Ilse Losa como candidata ideal para esse papel dentro da literatura, especificamente da literatura portuguesa. De origem alemã, mas escrevendo principalmente em português, Ilse Losa é um exemplo quase único da escrita não-nativa bem-sucedida em Portugal. A presente comunicação examina a sua figura como representante, no âmbito da literatura e cultura portuguesa, da subjetividade nómada delineada por Rosi Braidotti no campo da filosofia teórica. Examinarei a deslocação nacional e linguística de Losa, a sua adaptação e as identidades que assume (e rejeita), antes de refletir sobre como estas se manifestam na sua escrita, e o que isso oferece aos seus leitores e a todo o sistema literário português.

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Rosa Churcher Clarke licenciou-se em Espanhol e Português (língua e literatura) na Universidade de Oxford, Inglaterra, em 2012. Em Junho de 2016 terminará o seu mestrado de Erasmus Mundus em ‘Crossways in Cultural Narratives’, o qual a levou às universidades de Sheffield, Nova de Lisboa e Perpignan Via Domitia. Os seus interesses de investigação centram-se na representação literária da presença dos refugiados da Segunda Guerra Mundial em Portugal, e está a ultimar a sua tese sobre o (não)-lugar de Ilse Losa na literatura portuguesa.