CAMYLLA LIMA DE MEDEIROS

CAMYLLA LIMA DE MEDEIROS

Título: O exílio na língua: o indizível na obra de Clarice Lispector

Resumo: “Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que me escapa e no entanto vivo dela […]”. O silencio, pela falta de uma palavra justa que possa traduzir a experiência vivida, perpassa toda a obra de Lispector, mas encontra-se substancialmente em duas: A paixão segundo G. H. (1964) e Água Viva (1973). As protagonistas destes romances são prisioneiras em suas próprias línguas, sempre insuficientes. Para compreender esse indizível, consideramos importante observar a experiência biográfica da autora. Igual a tantas outras mulheres, Clarice Lispector viaja para seguir seu marido e viverá em exílio entre os Estados-Unidos, a Suíça e a Itália por mais de quinze anos. Esse desenraizamento é muito difícil para a autora que confessara em sua correspondência que ela nunca se sentira em casa. No entanto, esse sentimento só adquire sentido depois de um primeiro deslocamento. Aquele de sua infância: Lispector nasceu na Ucrânia quando seus país judeus escapavam de uma Rússia afetada pela revolução de 1917. Dois meses depois de seu nascimento, sua família chega ao Brasil onde outros parentes já estavam estabelecidos. Embalada pela “multipolaridade referencial da exiliência”, a autora vive um desenraizamento radical: “Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer […] eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém”. Nesta comunicação, nós exploraremos as ligações existentes entre essa falta de pertença e a falta de palavras afim de estudaremos o vazio que define todos os sujeitos em exílio. Assim, aproximando a biografia da autora com as obras supracitadas, nós analisaremos de que forma a experiência exílica contribuiu para esse o vazio escritural, transformando sua própria língua materna em outra língua, em língua do outro.

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Camylla Lima de Medeiros é mestre em literatura comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte no Brasil, e atualmente é doutoranda em literatura comparada na Universidade d’Aix-Marseille sob a orientação do professor Doutor Alexis Nouselovici (Nouss). Trabalha sobre a escrita exílica feminina nas obras de Marguerite Duras, Clarice Lispector e Alejandra Pizarnik. Associada ao CIELAM (Centro interdisciplinar de estudos literários de Aix-Marseille), é professora substituta de língua portuguesa na Universidade do Sul Toulon-Var e membro do comité de redação da revista Les Chantiers de la Création (http://lcc.revues.org).
Publicou o artigo: “Une Histoire Américaine e as peças do quebra-cabeça”, in XI Congresso Internacional da Associação Brasileira de Estudos Canadenses (ABCAN), Brasil. ISBN: 978-8560667-97-0.