GRAÇA DOS SANTOS

GRAÇA DOS SANTOS

Título: Exiliência feminina nos filmes Ganhar a Vida de João Canijo e A Gaiola Dourada de Ruben Alves: duas abordagens contraditórias da figura materna

Resumo: «Num bairro de renda social dos subúrbios de Paris, morre um adolescente, Álvaro. Aparentemente, foi vítima de uma intervenção abusiva da polícia. Cidália, a mãe de Álvaro, lança-se numa batalha por uma causa perdida: quebrar a lei do silêncio na sua comunidade…». Esta resenha da sinopse de Ganhar a Vida, do realizador português João Canijo, apresenta a comunidade portuguesa dos subúrbios de Paris de forma menos friendly do que o filme, mais recente, A Gaiola Dourada de Ruben Alves. O tom e o objetivo não são os mesmos. Ao filme sombrio e trágico de 2001 responde uma comédia em 2012. O ângulo de abordagem é fundamental: enquanto João Canijo opta por fazer evoluir Rita Blanco para uma Cidália-Antígona a questionar os modelos socioculturais (tanto os herdados, como os adquiridos), atriz trágica cujo olhar vai revelar a obscuridade que lhe querem esconder, Ruben Alves faz da mesma Rita Blanco uma Maria mais próxima da opereta do que da tragédia, cujas acanhadas insubmissões não questionam a ordem estabelecida. Por um lado, os subúrbios parisienses muito parecidos com os do filme dramático Tête de turc (2010), de Pascal Elbé, e do outro o senhorial 7º bairro de Paris nos tons açucarados do filme Amélie Poulain. Pelo prisma de dois géneros diferentes, veremos a que ponto o processo de exiliência se declina de formas diferentes.

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Graça Dos Santos é professora catedrática na Universidade Paris Ouest Nanterre La Défense (EA 369 Etudes Romanes), onde é diretora do CRILUS (Centre de recherches interdisciplinaires sur le monde lusophone); é investigadora associada no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES) e no Centre d’histoire culturelle des sociétés contemporaines (Université Versailles St Quentin en Yvelines) onde codirige desde 2001 com Jean-Claude Yon o seminário de investigação “Histoire du spectacle vivant XIXe et XXe siècles”, na Société d’Histoire du Théâtre, Bibliothèque Nationale de France, Paris. Os seus trabalhos consagram-se à história cultural europeia e analisam em particular a ditadura salazarista e a censura. Escreve sobre as noções de corpo físico / corpo social, sobre as representações cénicas do corpo e do povo. Tem um certo número de artigos publicados sobre a história do espectáculo europeu e sobre o teatro português. Publicou Le spectacle dénaturé, le théâtre portugais sous le règne de Salazar 1933-1968 (CNRS éditions, Paris 2002) editado em português nas edições Caminho (Prémio «Révélation 2005» du Prémio de Literatura da revista Máxima. Encenadora, actriz e professora de arte dramática, fundadora da companhia Cá e Lá (Compagnie bilingue français/portugais) tem desenvolvido um trabalho específico sobre o ator bilingue e sobre as conexões entre teatro e ensino das línguas. É diretora de Parfums de Lisbonne – Festival d’urbanités croisées entre Lisbonne et Paris cuja 10ª edição decorreu entre maio e julho de 2016.