MARIA FERNANDA AFONSO

MARIA FERNANDA AFONSO

Título: A condição exílica das personagens femininas no romance de Mia Couto

Resumo: Segundo Alexis Nouss, que analisou a representação da experiência exílica em romances de Kafka, o conceito de exiliência, por ele definido, corresponde a um «noyau existenciel commun à toutes les expériences de sujets migrants, quelles que soient les époques, les cultures et les circonstances qui les accueillent», reclamando tal situação existencial duas premissas, a condição e a consciência de alguém se sentir exilado, podendo estas, todavia, não serem coincidentes: «se sentir en exil sans l’être concrètement; l’être concrètement sans se sentir en exil». Consciente de que no romance de Mia Couto, a questão da relação entre o exílio e a comunicabilidade da experiência de exílio constitui um dos temas mais relevantes, animado pelo propósito de construir a identidade de sujeitos em deriva, que partem não à procura de uma melhor situação sócio-económica, mas em inconformidade com relação a um destino cruel, tentaremos analisar a problemática exílica vivida por personagens femininas coutianas que se deslocam entre espaços e tempos distintos, funcionando, o que é próprio deste autor, os nomes dos lugares e das personagens como jogos semânticos – em “Terra Sonâmbula”, Farida, que fugia da pequeninez daquele lugar mesmo que o fizesse pela loucura de embarcar num barco encalhado. Mas sempre era uma viagem, uma saída daquele inferno (p.173); em “O outro pé da sereia”, Mwandia, cujo nome significa canoa; e em “Mulheres de cinza”, Imani, palavra que quer dizer quem é? –, buscando estas mulheres na sua exiliência, «experiência do limite e experiência limite», em deslocamento imprevisível ligado ao deslocamento imponderável do mundo, paz, voz, confronto com o mistério da própria vida.

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Maria Fernanda Afonso, ex-leitora do Instituto Camões nas Universidades de Toulouse, Bruxelas, Gand e Lovaina, onde promoveu a criação de cursos de Literaturas africanas em língua portuguesa, membro do CLEPUL, é titular de um doutoramento obtido na Universidade de Bordéus sobre escritas lusófonas pós-coloniais, tendo artigos publicados em revistas portuguesas, brasileiras, francesas, belgas e holandesas. Co-autora do livro Aprender a dominar a escrita, que conheceu várias edições na Texto Editora, é autora de O conto moçambicano (Editorial Caminho, 2004) e co-autora do Dicionário temático sobre a obra de António Lobo Antunes, dirigido pela Professora Dra Maria Alzira Seixo (Imprensa Nacional, 2008). Entre os artigos publicados, contam-se: “A problemática pós-colonial em Mia Couto: mestiçagem, sincretismo, hibridez, ou a reinvenção das formas narrativas”, in Cinco povos, cinco nações (org. Pires Laranjeira), Novo Imbondeiro e ILLP – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2006; “Le roman féminin africain postcolonial: dévoilements identitaires”, in Identities in process : Studies in comparative literature, (org. E. F. Coutinho) Aeroplano Editora, Rio de Janeiro, 2008; “Au seuil de la mémoire historique: la problématique du secret dans Beatus Ille (1986) de Antonio Muñoz Molina et dans A ordem natural das coisas (1992) de António Lobo Antunes”, in Cultures Lusophones et Hispanophones: Penser la Relation (org. Maria Graciete Besse), Indigo, Paris, 2010; Leitura do conto “A viagem da cozinheira lagrimosa” in O conto na lusofonia 2. Antologia crítica, (coordenação Maria Isabel Rocheta e Margarida Braga Neves), Edições Clepul, Lisboa, 2012 de Mia Couto”; “De Goa au Mozambique. La figure du double dans le récit in Goa” in D’un genre à l’autre (org. Maria Graciete Besse et Ernestine Carreira), Presses Universitaire de Provence, Aix-en-Provence, 2015. Alguns artigos publicados on-line: “Mar me quer de Mia Couto: os afectos, a gramática e o estranhamento do insólito”, in Congresso de Literatura infanto-juvenil 2013, Faculdade de Letras de Lisboa; “Cartografias literárias africanas: a postura pós-colonial de António Jacinto, José Craveirinha e Mia Couto” in Congresso António Jacinto e sua época. A modernidade nas literaturas africanas em língua portuguesa, org. por Ana Paula Tavares, Fabio Mario da Silva e Luís da Cunha Pinheiro, 2015, disponível nos seguintes endereços eletrónicos: http://www.lusosofia.net/textos/20160322-tavares_ana_paul_silva_fabio_maio_pinheiro_luis_cunha_antonio_jacinto_e_a_sua_epoca.pdf e http://www.lusosofia.net/