NAZARÉ TORRÃO

NAZARÉ TORRÃO

Título: “Espelho meu, diz-me quem sou e quem poderia ter sido”

Resumo: Nesta comunicação, proponho-me analisar a obra de Djaimilia Pereira de Almeida, Esse Cabelo (Teorema, 2015). História de uma autora/personagem (num registo de autobiografia ficcionada ou de ficção muito perto da biografia) que cresceu em Lisboa, filha de mãe angolana e de pai português, numa família em que a migração é condição comum há várias gerações. O cabelo crespo da personagem principal marca a diferença sentida, negada, sofrida ou assumida. Olhar-se ao espelho ou fugir dele é assumir-se ou querer iludir a sua diferença. Segundo a teoria de Jacques Lacan, o estádio do espelho consiste na transformação do sujeito quando este assume a imagem e se identifica com ela, uma relação entre o organismo e a sua realidade, ou seja, entre o mundo interior e o mundo exterior. O exílio familiar criou esta diferença em relação ao meio em que cresceu, pelo que o discurso identitário que é desenvolvido questiona também quem poderia ter sido se tivesse vivido em Angola –um duplo imaginado. Aparência exterior e vida interior, futilidade aparente e profundidade analítica, ser portuguesa e ser africana – são alguns dos eixos temáticos sobre os quais a obra se constrói e que serão analisados à luz da literatura teórica sobre a condição do migrante, da condição da mulher e da construção da identidade em contextos pluriculturais.

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Nazaré Torrão é doutorada em Literatura Comparada pela Universidade de Genebra, onde é responsável pela unidade de português desde 2012. Leciona língua e literatura com relevo para a portuguesa, moçambicana e angolana. Desenvolve investigação sobretudo sobre as questões da identidade nacional, das poéticas do espaço e das deslocações. O último artigo publicado foi “Reprendre sa place: récits du desexil mozambicain” sobre a obra de Mia Couto.